Alimentos com agrotóxicos causam doenças e mortes


 

Juliana Lobo Corrêa, Nutricionista Clínica, CRN 10/4703

Valcionir Corrêa, Doutor em Sociologia Política

            Há muito tempo se sabe da utilização de agrotóxicos na produção de alimentos. Porém, a maioria da população consome sem ter conhecimento sobre os efeitos nocivos desses alimentos em nosso organismo. É normal as pessoas irem ao supermercado ou feira, comprar determinados produtos e levarem para casa pensando que estão adquirindo alimentos saudáveis para seu consumo. Infelizmente, não é bem isso que acontece, pois esses alimentos estão envenenados. Atualmente, quem não tem um parente, um membro da família ou um amigo que sofre de câncer ou que tenha morrido por causa de tumores malignos? Agências de pesquisas em saúde tem comprovado a recorrência de cânceres e de inúmeras doenças por causa do uso de agrotóxicos no cultivo dos alimentos que são ingeridos pela população.

            A origem do uso de agrotóxicos na produção de alimentos não possui nenhuma nobreza, bem como sua prática, pois nasce com a indústria da morte. Ela decorre da indústria bélica desenvolvida a partir das duas guerras mundiais. Na ocasião, os alemães possuíam grande estoque de nitrato usado na fabricação de explosivos, reutilizaram-no na agricultura para aumentar a produção de alimentos. Da mesma forma, os Estados Unidos deram nova utilização na agricultura do veneno mais conhecido como “agente laranja”, um desfolhante altamente tóxico utilizado pelo seu exército nos campos de batalha na guerra contra o Vietnã (1959-1975). Portanto, foi a partir da indústria da guerra que começou a famosa “Revolução Verde”. No Brasil, não foi diferente, a Revolução Verde foi introduzida a partir do golpe civil-militar de 1964.

            A Revolução Verde foi defendida pelas grandes indústrias químicas com a ideia de acabar com a fome e aumentar a produtividade agrícola. Não foi isso o que aconteceu. Em recente relatório da FAO/ONU, foi afirmado que nunca se viu tanta fome no mundo, apesar do progresso econômico. Na verdade, a Revolução Verde foi a forma de expandir os negócios capitalistas para o campo por meio da industrialização da produção agrícola, objetivando o lucro.  Isso gerou inúmeros problemas sociais e ambientais, como o êxodo rural, a monocultura, os latifúndios com a consequente diminuição da agricultura familiar, desmatamento, redução da biodiversidade e, principalmente, uso abusivo de agrotóxicos. Os agrotóxicos são herbicidas, pesticidas, fertilizantes entre outros químicos utilizados nas lavouras e pecuária para combater fungos, ervas daninhas, insetos, pragas que comprometem a produção. Porém, o uso desses agentes químicos, além de provocar desequilíbrio ambiental, poluem o ar, a água subterrânea, os rios e mares e prejudica a saúde humana.

            O herbicida Glifosato, produzido por uma grande multinacional que domina a produção de agrotóxico mundial e sementes transgênicas, é o agrotóxico mais utilizado mundialmente. Devido a seus efeitos cancerígenos e outras sequelas que provoca, seu uso foi banido nos países europeus e nos Estados Unidos. Em nosso país, é o agrotóxico mais utilizado nas lavouras, no cultivo de alimentos de todos os tipos: café, cana-de-açúcar, frutas, legumes, hortaliças, feijões, arrozes, ou seja, na maioria dos produtos agrícolas. Para se ter uma ideia, o Brasil possui o título de maior consumidor de agrotóxico do mundo. E o governo, que deveria preservar o bem estar da população e não das multinacionais, incentiva o uso criminoso desses venenos por meio de isenção e redução de impostos. Com esses incentivos governamentais, no Brasil, a comercialização de agrotóxicos aumentou em 155% nos últimos anos.  Isso é preocupante, como aponta o IBGE, que considera 64,1% desses venenos aplicados como perigosos e 27,7% muito perigosos.

            A Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer ligada à OMS publicou, recentemente, relatório confirmando que o agrotóxico Glifosato é um agente causador de câncer, principalmente o linfoma Non-Hodgkin. O Glifosato está diretamente relacionado aos cânceres de mama, próstata, linfomas e mutações genéticas. Na plantação de fumo é muito utilizado, inclusive é indicador de depressão, suicídio e anomalias congênitas nos trabalhadores rurais, conforme estudos feitos no Rio Grande do Sul. O uso de herbicidas e pesticidas, que são agentes tóxicos, deixa os camponeses em situação de vulnerabilidade, em ambientes que se tornam periculosos e insalubres devido ao manuseio desses agrotóxicos. Como confirma a Organização Mundial da Saúde, quando declara que “80% dos casos de câncer são atribuídos à exposição de agentes químicos”.

            A aplicação do herbicida Glifosato é indispensável no cultivo de sementes transgênicas, como a soja que é muito cultivada no Brasil. Por isso, outro alerta que se faz é sobre o consumo de alimentos transgênicos (Organismos Geneticamente Modificados) desenvolvidos pela biologia molecular que são monopólios de multinacionais. Esses alimentos não são apenas cruzamentos de plantas como nossos avós faziam, mas sim cruzamentos de dois reinos, o reino vegetal com o animal, principalmente. Introduzem gens de animais em plantas para terem maior resistência a pragas e ter melhor produtividade. Estudos científicos indicam possíveis doenças advindas dessa tecnologia, como intolerâncias e alergias decorrentes do consumo de alimentos transgênicos que a medicina convencional desconhece e não sabe tratá-las.  Quando as detentoras dessas tecnologias começaram a introduzir sementes transgênicas de soja e milho ocorreram muitas polêmicas, principalmente quanto à intervenção delas na reprodução da natureza e as consequências humanas que poderiam ocorrer, bem como preocupações que se referiam à polinização feita pelas abelhas que é responsável por 2/3 dos alimentos que consumimos. Não há controle sobre os efeitos dos transgênicos na fauna e na flora. Agricultores tradicionais tentam salvar as sementes crioulas para evitar contaminações advindas das transgênicas. Enfim, por mais absurdo que isso possa parecer, constatamos que as corporações multinacionais da indústria química privatizaram e estão monopolizando a reprodução da natureza por meio das sementes transgênicas. Com isso, as sementes naturais são destruídas e deixam de ser propriedade coletiva da sociedade.

            Em síntese, estudos apontam diversas doenças que tem como causa o consumo de agrotóxicos por meio dos alimentos: o câncer como principal doença decorrente do agrotóxico, além dele doenças no fígado, rins, autismo, infertilidade de homens e mulheres, Mal de Alzheimer, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Doenças neurológicas, Tireoide, Doenças cardíacas, Depressão, inúmeras alergias, malformação do feto, abortos.

            Diante desse quadro desolador, o que se pode fazer é diminuir radicalmente o consumo de alimentos produzidos com o uso de agrotóxicos aderindo à alimentação orgânica, bem como diminuir o consumo de alimentos industrializados por in natura. Os industrializados apresentam altas cargas de conservantes químicos, aromatizantes, corantes, estabilizantes e acidulantes que, em consumo contínuo, comprometem a saúde. Os alimentos orgânicos são produzidos sem adição de qualquer tipo de agrotóxicos.  Esses alimentos saudáveis, cultivados sob os princípios da agroecologia, estão se popularizando no Brasil e no mundo, sua produção respeita os produtores e consumidores, bem como os ciclos da natureza e os recursos naturais disponíveis. Eles são comercializados em feiras pelos próprios agricultores ou parceiros, mas também já são encontrados em mercearias e supermercados. Ressaltamos a importância de reaprendermos a cultivar em casa as hortaliças, legumes e frutas, pois em pequenos espaços são possíveis produzir boas quantidades e qualidades de alimentos, principalmente fazendo uso de compostagem.

Por último, podemos sim reduzir consideravelmente o consumo de alimentos envenenados, mas, infelizmente, sozinhos não conseguiremos eliminá-los totalmente, pois os agrotóxicos contaminam o meio ambiente, biomas e ecossistemas. Uma verdadeira mudança do status quo está no campo da política, ou seja, romper com o modo de produzir capitalista, que busca o lucro acima do bem estar social.

 

Não esqueça! Procure um/a nutricionista para melhor adequar sua alimentação e ter uma ótima saúde.

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21 set 2017


Por Juliana Lobo Correa
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