SURF UP - HOMENS QUE CORREM MONTANHAS...


O título impactante foi extraído da bela canção escrita pelo inspirado músico havaiano Israel Kamakawiwo'ole e criada para homenagear os Homens que correm montanhas. Não! Não se trata de uma música ou artigo de alpinismo, porque os astros são homens do mar, que não são diferentes de você e eu, mas sempre instigados por ondas gigantescas, o Sol e a Mãe Natureza. Este bordão virou referência mundial no surfe quando o assunto se trata em surfar as ondas monstruosas...

Meio século atrás o surfe de ondas grandes caminhava a passos largos nas ilhas havaianas. Quem não se arrepiou no início dos anos 70 com a célebre foto do Greg “Da Bull” Noll dropando uma onda histórica e brutal em Makaha, que foi papel de parede em algumas lojas na época? Eddie Aikau já dominava com maestria as cabulosas ondas de Waimea, Sunset e muitos picos, que quando quebram grandes assustam qualquer um. De fato são heróis por arriscarem suas vidas apenas com a prancha, braços, pernas, pulmões e uma incrível fortaleza psicológica, sem nenhum equipamento de segurança, como ocorre hoje em dia. Nomes como Rick Grigg, Reno Abelira, Barry Kanaiaupuni, James Jones, entre outros destemidos surfistas sempre se destacaram nas antigas, no Havaí, quando as condições ficavam fora de controle e muito cavernosas, para a maior parte dos reles mortais.

Se todas essas sensacionais conquistas cinquentenárias já eram um desafio para poucos surfistas, nessa época era inimaginável que o surfe de ondas gigantescas chegaria ao patamar que chegou hoje e em acelerada (r)evolução. Durante muito tempo o recorde de surfar uma onda na remada era de 10 metros e foi registrado pelo saudoso Mark Fooem Waimea, algo que repercutiu mais no meio do surfe, porque a penetração na mídia de massa era bem restrita e não existiam as mídias sociais.

Para terem uma ideia de como a arte de deslizar em pulsos marinhos superlativos é um esporte de extremo risco, justamente o recordista mencionado veio a falecer em outra onda considerada sombria, temida e gélida, batizada de Mavericks e descoberta pelo insano Jeff Clark que por muitos anos surfou as ondas brutais de Half Moon Bay, só ou na companhia de pouquíssimos amigos. Se surfar Mavericks em pé de guerra hoje (25 metros), com dezenas de jets, equipes de resgate, drones, rádios, paramédicos, coletes com oxigênio ainda é prática esportiva muito perigosa, o que pensar de um homem só enfrentando ondas deste calibre, apenas com sua sagacidade, prancha e wetsuits...

Outros marcos merecem destaque, como a conquista do brasileiro Carlos Burle, que foi campeão mundial de ondas grandes em 1998, na Baía de Todos os Santos (México). O incrível desempenho do Mike Parsons em Cortes Banks, uma bancada a 160 km do litoral californiano. Considerado nos anos 80 um surfista prudente quando o mar crescia, em 2008 deu a volta por cima e surfou em Cortes Banksuma onda com 25m, que foi desbancada só em 2013, quando uma bruta com 30m foi surfada pelo havaiano Garrett McNamara, na praia de Nazaré em Portugal. A quebra dessa marca é o que move os destemidos surfistas, sempre monitorando e surfando em condições mais extremas.

Há poucos dias atrás, em Nazaré, os brasileiros Rodrigo Koxa e Maya Gabeira surfaram ondas que, se for confirmado, serão as novas marcas a serem quebradas. O assunto é infinito, mas é inegável que o maior ponto de inflexão que ocorreu no surfe de ondas titânicas aconteceu em 2015, quando os baianos Danilo Couto, Márcio Freire e Yuri Soledade quebraram a barreira de surfar em Jaws (Havaí) na remada e sem o apoio do Jet. Desde a década de 90, que a temida onda de Mauiera surfada com apoio motor. O trio estudou a fundo as condições, modelos de pranchas e com coragem e brio de outro planeta encararam no braço ondas de até 30 m e contaminaram o mundo do surfe!

Paulo Eduardo Antunes (Surfista e Mestre em Gestão Ambiental)

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20 fev 2018


Por Paulo Eduardo Antunes
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